por Herley Leite de Paula e Silva
Introdução
Neste texto vou tratar acerca da consciência pura e da não-dualidade sujeito-objeto. Várias escolas filosóficas e religiosas estudam este assunto, mas neste texto vou focar apenas na Advaita Vedanta, na escola Samkhya e na Yoga de Patanjali.
Antes de continuar a leitura, recomendo ao leitor que acesse o texto “A Consciência e seus Corpos Sutis”, aqui mesmo neste blog.
A não-separação sujeito-objeto
A consciência pura é estudada pela escola filosófica e religiosa Advaita Vedanta, pela escola filosófica Samkhya e pela Yoga de Patanjali. Na Advaita, a consciência pura é chamada de Brahman, ou Atman, e nas escolas Samkhya e Yoga, é chamada de Purusha.
Na consciência pura não há divisão sujeito-objeto, pois não há uma instância que vê e outra que é vista. Na consciência pura, conhecer é ser.
Essa condição é possível tanto com os purushas individuais da Samkhya (ou da Yoga), como com o Atman universal da Advaita Vedanta. Lembrando que na Advaita só há uma consciência pura, enquanto na Samkhya há uma pluralidade de consciências puras, ou purushas.
O nirvikalpa samadhi
É no nirvikalpa samadhi da Advaita Vedanta ou no kaivalya da Samkhya, que a consciência pura aparece. Tais termos indicam um estado de consciência não-dual.
Nesse estado de consciência, o Atman, ou Purusha, é sujeito e objeto de si próprio, pois não há outros objetos para serem vistos. Nesse estado, conhecer é ser. Isto também ocorre no sono profundo sem sonhos, em que desaparecem os objetos e a sensação do ego.
A diferença entre o nirvikalpa samadhi e o sono profundo sem sonhos, é que no sono comum a consciência pura percebe uma mente tomada pela ignorância, enquanto no samadhi, a mente se torna transparente e reflete perfeitamente a consciência. Assim, o nirvikalpa é uma experiência plenamente consciente.
Sobre o samadhi veja a interpretação de Henriques (1990):
No nirbija samadhi a consciência (Purusha) conhece a si própria para além do mundo da Prakriti e do ego (ahamkara), isto é autorealização ontológica. A luz da consciência ilumina-se a si própria e não mais aos objetos. Uma consciência sem objeto e voltada para si mesma, à primeira vista parece-nos uma consciência sem conteúdo, vazia, mas não é assim no Yoga. Cabe lembrar que esta autoconsciência não é a consciência de um eu que pensa, nada tem a ver com o cogito cartesiano. (Henriques, 1990, p. 207).
A consciência pura é universal ou individual?
A posição da escola Samkhya
Existe um debate milenar entre as escolas Advaita Vedanta, Samkhya e a Yoga sobre a natureza da consciência pura. A escola Samkhya diz que os purushas são totalmente separados e independentes, não se comunicam e são distintos de outro princípio chamado Prakriti, ou natureza. O Purusha é o sujeito e a Prakriti representa o conjunto dos objetos do universo, incluindo a mente.
É possível, no entanto, adotar uma visão atualizada da Samkhya e não unicamente a visão original. Numa interpretação atualizada, os purushas individuais se identificam e vivenciam sua identidade como um só ser.
Nesse caso, os purushas não conhecem um ao outro, pois essa seria uma relação sujeito-objeto. Eles sentem que são todas as outras consciências e todo o universo.
Diz Henriques:
Ora, quando o yogue se reencontra com o seu Purusha, com o seu Si-Mesmo, ele transcendeu toda e qualquer separação ou diferença, conceitos próprios da multiplicidade da Prakriti. Não há comunicação porque há total identidade e não mais diferença. (Henriques, 1990, p. 252).
Em outras palavras: no nível do ego (ahamkara) há alteralidade a partir de uma relação espacial corpórea, e no nível do espírito (Purusha) não pode haver alteridade, lá só temos identidade e não diferença. Quando o Eu é também o outro, não existe o outro. (Henriques, 1990, p. 253).
Na versão original da Samkhya, o Purusha e a Prakriti são separados, enquanto na Advaita Vedanta eles são aspectos da mesma consciência pura, ou Brahman. De acordo com a Advaita, tanto o sujeito como o objeto são aparências assumidas pela consciência pura, assim como a argila pode assumir a forma de um pote.
Numa visão atualizada da Samkhya é possível conceber uma Prakriti como a energia do próprio Purusha, do mesmo modo que na Advaita Vedanta, a Maya é inerente ao próprio Brahman.
Há um problema, porém. Se a Prakriti é uma só, como ela pode provir de uma multiplicidade de purushas? Só podemos aceitar essa ideia se entendermos que os purushas estão interconectados e identificados entre si, como se fossem uma única consciência universal. E isso também explicaria porque todos têm a mesma visão básica do universo.
Sobre isso, veja também Henriques (1990, p. 62, 76-80).
A posição da Advaita Vedanta
A escola Advaita Vedanta diria, porém que, se os purushas são interconectados como uma identidade universal é preciso que haja uma consciência universal que esteja consciente dessa interconexão.
E os sábios da Advaita também dizem que a consciência suprema não pode estar dividida, pois ela precisa estar ciente de qualquer divisão.
Conclusão
Continua, então, o debate entre os seguidores da Advaita Vedanta, da Samkhya e da Yoga acerca da consciência pura. Uma solução provisória seria admitir que o Purusha é dependente do Atman, mas não é uma simples ilusão. Assim, a consciência seria universal e individual ao mesmo tempo.
Nota do autor: Este artigo foi revisado e aprimorado em 10/12/2025, para garantir a precisão das informações.
Referências
Henriques, Antônio Renato. Yoga & Consciência: a filosofia dos Yoga-Sutras de Patañjali. Porto Alegre: Rígel, 1990.